terça-feira, 17 de outubro de 2017

Meus pais e o trabalho

"Em uma escolha entre o amor e a nossa própria satisfação, é compreensível se muitas vezes fechamos nossos horizontes para preservar nosso relacionamento com aqueles que nos levaram ao mundo". Sobre o livro "Middlemarch: um estudo da vida provinciana", de George Eliot.

Ainda sobre o curso da School of Life, outro momento eureka para mim foi criar consciência de que a forma como meus pais encararam o trabalho a vida inteira foi tão responsável pela minha liberdade, quanto eu mesma. 

E, sobretudo, como esse tema está cada vez mais relevante na formação das pessoas, e o cuidado que devemos tomar ao chegarmos em casa e compartilhar, em família, nossas experiências:

1. Tive ainda mais convicção de que o que fazemos não nos define;
2. Quebrar a corrente da pergunta às crianças "o que você vai ser quando crescer", listando características, não profissões;
3. Reforçar que nossa identidade é quem somos, não o que fazemos e que ter essa clareza vai nos ajudar a pedir do trabalho aquilo que vamos querer dele e não o que achávamos que ele deva suprir.

Descobri, em uma reflexão rápida e depois de ter mandado uma mensagem para meus irmãos no whatsapp, que embora meus pais não fossem apaixonados pelo que faziam, não tivessem esse viés de "propósito", "mudar o mundo", eles nos ensinaram que o valor deles ao trabalho era conviver com pessoas ora semelhantes, ora diferentes; que com a dedicação puderam nos dar uma excelente educação, lazer e, sobretudo, caráter sobre a utilização dessas conquistas materiais. 

Descobri que não cresci em um universo de reclamações, fossem elas "meu chefe é escroto", "meu trabalho é chato", "trabalho demais", mesmo que eles tenham vivido cada uma dessas dificuldades, diversas vezes.

Descobri que embora as leis hoje sejam diferentes das do século XVIII, XIX e até XX, em que os filhos só poderiam trabalhar em funções que o pai (na grande maioria dos casos) autorizasse, ou que ele estabelecesse ser "bom o suficiente para meu filho", que há ainda muitas, muitas, muitas pessoas que escolhem o trabalho nessa premissa familiar e que então, sobretudo, o amor pode mesmo controlar mais do que a ausência de leis, principalmente se vier carregado de medo ou liberdade.

Descobri, por fim, que por mais que eu achasse que eu não tinha uma premissa familiar para o trabalho, tive certeza que sim. Mas como ela foi discreta, verdadeira, introjetada organicamente, veio como na formação do caráter, na vivência máxima de que sou livre para ser feliz e que o trabalho deverá ser para mim o que eu quiser que ele seja. 

E esse exercício de amar, libertando o outro, deve ser um dos mais difíceis: Obrigada mãe, e pai: Isso fez toda a diferença!

terça-feira, 10 de outubro de 2017

O que o trabalho te dá?

"O verdadeiro conhecimento vem de dentro". Sócrates.

Esse fim de semana eu fiz um curso intensivo de carreira da School of Life, maravilhoso!: passamos pela história do trabalho, pela importância do autoconhecimento, da leitura de cenário e, principalmente, do significado do trabalho que cada um tem para si - grata surpresa estar alinhada com o David Baker!

Dentre as muitas perguntas feitas ao longo dos dois dias, uma que muito me chamou atenção foi "O que o trabalho nos dá?".

Simples, mas nem tanto.

Foram muitas as palavras listadas no flipchart pelo grupo: tinha desde "dinheiro", "satisfação", "reconhecimento", a "dignidade".

Curioso ter clareza de que assim como tudo na vida, o trabalho não vai te dar tudo também: não existe isso, né? Mas por que é tão difícil entendermos e por que exigimos tanto de nós mesmos e, sobretudo, do nosso trabalho - seja do nosso chefe, dos nossos colegas, dos nossos clientes, da estrutura do lugar em si?

O exercício mais rico foi pensar nessa lista e alocar algumas palavras para outras experiências, por exemplo: se em algum momento o trabalho não me der mais desafio, eu consigo me motivar me estabelecendo uma meta de participar de uma maratona?, e aí eu aproveito que o trabalho me demanda menos, para que eu possa fazer outra coisa? Afinal, por que é que a gente não sabe usar muito bem o tempo fora trabalho? 

No fim das contas, a grande pergunta foi "o trabalho é apenas sobre o próprio trabalho?". 

Bom, desde este fim de semana a resposta para mim é "não" e a aventura estará em descobrir quais outras atividades eu posso fazer para ter aquilo que quero, já que o trabalho não dará tudo. E, sobretudo, que o que eu estou priorizando tem que estar alinhado com o meu momento, adequando essa matemática de olhar para dentro e para fora.

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

10 (dez) elementos sobre a não empatia do R&S

 irrelevante ter uma grande visão sem ter as pessoas certas". Jim Collins.

Depois que escrevi o "R&S e a não empatia (both ways)" tive a oportunidade de conversar com algumas pessoas sobre minha perspectiva em relação ao tema e, para resumir, eis que:

1. A empatia em si: acho mesmo que se a pessoa que representa a porta-de-entrada de uma organização olhar o CV do candidato sob uma perspectiva mais empática vai tentar entendê-lo, sem julgamento, e validar premissas, sem necessariamente trazer aquele ar de "já sabia que não tinha perfil", evitando um risco de antecipar "verdades enviesadas";

2. Querer ouvir: o próprio recrutador tem a oportunidade, inclusive, de desenvolver uma escuta mais ativa, se abrindo de fato ao que a pessoa fala e não ao filtro que ele quer usar para atender a uma interpretação própria;
3. Estar aberto: se o RH, neste caso, vai com uma postura de "vou pegá-lo na curva", por ter listado os gaps do candidato entre uma experiência e outra, provavelmente ele também não sairá ganhando: dê um passo atrás e reveja os motivos pelos quais aquela pessoa precisa ser entrevistada pr'aquela vaga, sem agenda oculta;

4. Servir primeiro: o espírito de uma entrevista deveria ser de honestidade, integralidade e atenção ao outro - só por protocolo, acredite, você vai se convencer de que aquela pessoa também não serve;
5. Aceitar que ninguém é perfeito: gerar curiosidade para entender "onde ele é bom" e focar nisso, para tentar, de verdade, fazer com que dê certo - as imperfeições são as características mais intrínsecas dos seres humanos; não as descarte!;
6. Não seja sacana, vai!: fazer perguntas que mais querem matar sua curiosidade e eventualmente expor o candidato para você se sentir mesmo melhor do que ele são práticas do passado e que dizem mais sobre você e sobre a empresa do que sobre ele;

7. Ser inteiro: se você não gosta do que faz, reavalie, porque é muito sério: dizer sim ou não vai mudar a vida dessa pessoa e não é um unmatching tipo Tinder que, depois do seu botão, virão muitos outros: você pode ser a chance de realização de um sonho dele (a)!;
8. Posicione-se: para ser estratégico não precisa ser diretor nem VP - seja o melhor que pode ser, independentemente do seu crachá e assinatura no email. Tratar o candidato como uma pessoa e não como um check list  é a oportunidade que você tem de fazer tudo aquilo que reclama que a liderança não faz: inspirar pelo exemplo;

9. Só automatizar não resolve: adquira o melhor das tecnologias para triagem de candidatos, mas acredite, nada substitui o respeito daquele instante que processualmente chamamos de "entrevista"; e cada uma é uma, porque cada pessoa vem com uma história e você pode até não gostar dela, mas precisa avaliar se os elementos da narrativa cabem no livro que a sua empresa, a qual representa, está escrevendo - e como reproduzirão, juntos;
10. Blá-blá-blá: Se nada disso interessa, faz sentido ou pode ser endereçado, só te peço mais uma coisa: se você tivesse selecionado os melhores funcionários que existem hoje na sua empresa; que empresa ela seria?

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Você é o que você faz?

“O homem que remove montanhas sempre começa retirando pequenas pedras do caminho.” – Provérbio Chinês.

Conhecemos um pouco, pela história do mundo do trabalho, que as funções desempenhadas profissionalmente estavam diretamente ligadas a quem se era - fosse você filho de peixe, peixinho seria, fosse por ofertas reduzidas e concentradas, que faziam com que se trabalhasse naquilo que estava disponível. Ou seja, trabalhava-se por "necessidade ou destino", não por "liberdade e escolha"*.

Apesar de ainda achar que "poder escolher" é um atributo, na grande maioria das vezes, de classes mais privilegiadas, o discurso tem aumentado tanto, que tem incomodado até mesmo aqueles que estavam acomodados - e tudo bem!

Comecei a ouvir pessoas dizerem:

- Babi, eu acho que não tenho um propósito, e aí?

- Eu não sei se quero mudar o mundo; será que meu trabalho não tem sentido e eu não tinha me ligado?
- Eu não impacto o mundo, acho, mas o que eu posso fazer?

Esses discursos de massa me incomodam. "Empresas dos sonhos". "Trabalho perfeito": Você sonha em ir para o Japão? Que legal, eu não. Empresas são para mim como viagens: experiências muito particulares que dependerão muito mais de quem você quer se tornar, do que você acredita, do que sabe fazer e do que busca, do que algo permanente que definirá quem você é.

De verdade, não é que você não tem um propósito, não impacta o mundo ou que seu trabalho não faz sentido: o caminho é seu, não é do coleguinha, do vizinho, do amigo - é seu. E só você pode dizer o verdadeiro papel do trabalho na sua vida e acho mesmo que estará tudo bem se você não for peixe, tendo o mar como seu habitat: É você quem vai escolher quem quer se tornar,  sendo.

A evolução do mundo do trabalho nos últimos anos tem sido tão velozmente acelerada, que, os 200 anos que a história precisou contar, antes que os filhos de padeiros pudessem ser outra coisa, que não padeiros, está se reduzindo para um espaço de cinco a 10 anos. 

Concomitantemente a esse movimento, as perguntas enlouquecedoras que os gregos se faziam no século V a.C. sobre "como ter uma boa vida" parecem um tsunami que chegou aos lugares e profissões mais impensadas do mundo moderno.

Então, mais preocupado em ser o "Fulano daquela empresa", a "Beltrana do RH", busque saber quem gostaria de se tornar - acho que vai ficar mais leve aceitar que tudo bem estar onde está agora e melhor ainda será o momento em que decidir sair e ser outra pessoa, em outro lugar. 

Se a montanha é a junção de pequenos fragmentos; se somos a soma das nossas experiências; se os empregos não são mais estáticos, porque filho de peixe, peixinho não será e se, então, a vida também não é estática, o apego, se existir, deveria ser à nossa essência e não ao nosso empregador, ao cargo atribuído, nem, tampouco, à nossa formação.


*Como encontrar o trabalho da sua vida - Roman Krznaric.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

10 perguntas para você candidatar (a si mesmo)

"Sou a única pessoa no mundo que eu realmente queria conhecer bem". Oscar Wilde.

Eu sei que é difícil buscar oportunidades de trabalho. Desanima quando, principalmente, os portais de vagas e cadastro de inscrições ou CVs têm contador e você adquire a informação das centenas, talvez milhares, de concorrentes contigo.

O sentimento de frustração é quase perene. Quando alguém responde um e-mail ou uma mensagem ou dá qualquer sinal de solidariedade, reciprocidade ou respeito mesmo, é como se um fiapo de luz virasse uma labareda; de tão importante que é nos sentirmos acolhidos e enxergar, neste outro, que às vezes nem sabemos quem é, um sujeito essencial para que nossa esperança seja uma realidade e não só um sentimento.

Da mesma forma que eu acredito que "buscar emprego" não seja fácil, nem confortável, também acredito que nos dedicamos pouco a nós mesmos, antes de aplicar para uma vaga, buscá-la ou até mesmo tentar encontrar pessoas que possam nos ajudar, com orientações, indicações ou recomendações; afinal, quando alguém nos pergunta "o que buscamos", tendemos a travar: na hora H, tudo o que parecia óbvio fica obscuro e nosso discurso perde a fluência que o pensamento parecia oferecer.

Minha sugestão? Responda para si mesmo porque você se candidataria. No que você é bom. No que verdadeiramente acredita: 

1. Como você se vê fazendo o que está escolhendo fazer?
2. Por que você escolheu o que escolheu, em termos de vida e carreira, até aqui?
3. Quais experiências você acumulou até hoje?
4. Por que razão você pediria (ou pediu) demissão? Qual a razão da sua saída nos empregos anteriores?
5. Como seu cérebro funciona?
6. O que você gosta de fazer?
7. Como é seu humor?
8. O que você pretende realizar? E por que realizar aqui; nesta oportunidade?
9. O que te levou a trabalhar nos lugarem em que trabalhou? Quais são os seus méritos?
10. Quais são seus fracassos?

Nada disso está no seu CV, nem nas respostas das fichas de inscrição. Mas sem refletir sobre questões como estas, "qualquer caminho serve" - e para "qualquer caminho", "qualquer pessoa" cabe.

*Não adesão à nova regra gramatical.