terça-feira, 15 de agosto de 2017

Um forte de ruínas no Deserto

"O caminho é o que importa, não o seu fim. Se viajar depressa demais, vai perder aquilo que o fez viajar." (Louis L'Amour)

Andamos pela rua Caracoles, entramos em ruelas que ainda não tínhamos ido, voltamos às lojas de câmbio, considerando trocar mais dólares por pesos chilenos, avaliando uma possibilidade de fazer um passeio de balão, se esgotássemos todas as rotas alternativas nos próximos dias.
Já era quase início da tarde quando nos lembramos de termos visto uma casinha com a placa de "central de informação ao turista" na praça principal - e única. Fomos até lá e perguntamos o que poderíamos fazer, além daquilo que tínhamos feito.

O atendente reforçou "todo lugar cerrado por la nieve", falou da ida de bike ao Vale de la Muerte e, quando estava prestes a desistir de trazer algo novo para nós, perguntou: "O Pukará de Quitor, vocês também já conheceram?".
- Opa! Este não! - olhei para a Amanda.
Ela pediu para que ele nos mostrasse no mapa: "vai que" havíamos entendido errado o portunhol dele.

De fato, não havíamos ido, mas nos animamos ainda mais quando ele disse que deveríamos ir a pé. Segundo ele, e mostrando no mapa também desproporcional, "3km do centro de São Pedro até lá".

Embora nossas pernas ainda doíam da pedalada do dia anterior, havíamos dormido bem, o café da manhã fora novamente mega reforçado. 
Na saída da Caracoles, olhamos para a direita e passei a seguir às coordenadas da Amanda: sou péssima para mapas! e ela disse com muita segurança: "depois daquela direita, é só seguir reto".
E foi. Mas por um bom tempo sentimos dúvidas sobre o caminho pelo qual caminhávamos, já que não havia placa e todas as referências do mapa desproporcional mais nos irritava ou confundia do que ajudava.

Quando enfim chegamos à entrada do Pukará e pagamos alguns pesos, que não me lembro quanto, mas acho que fora o passeio mais barato até então, não parecia assim ser grandes coisas. Ao longo da caminhada pelo Forte, descobrimos que era uma construção do século XII, realizada para proteger o povo atacamenho de invasores de outros lugares da América do Sul, por ser um lugar estratégico em termos comerciais, principalmente por estar sobre o Rio Grande e, portanto, por gerar uma riqueza à época, via cultivo, incomparável às demais da região.

Aquele dia fazia sol e calor e quando terminamos de andar pelas ruínas, achando tudo meio sem graça frente tanta beleza já vista, sentamos e pudemos avistar São Pedro bem de longe. Eu mesma só pensava sobre tudo o que tinha lido e as guerras que por ali aconteceram, pouco mais de 700 anos antes.

Ao pegar o celular para tirar uma foto, vi que estava sem bateria. Pedi o da Amanda emprestado - sem bateria. E isso acontecera várias vezes com o meu - desligar, do nada - com o dela havia sido a primeira vez e naquele momento apenas lamentamos não podermos tirar foto, já que a máquina, mais pesada, havíamos deixado no hotel, sabendo que caminharíamos com tanta coisa no lombo.

No meio da tarde, na descida para sairmos do Pukará e pegarmos a estrada para a cidade, vimos um pessoal no alto de uma outra montanha. Sem placas ou orientação no mapa do próprio Forte, fomos andando no sentido daquela gente e achamos uma bifurcação. Começamos a subir, sem saber para onde. Seguíamos um fluxo de percepção, não de pessoas.

Sem relógio ou celular, não fazíamos ideia do tempo. Num determinado momento do caminho, avisto um casal descendo. A mulher um pouco mais à frente do homem. A mulher passou por mim. Quando ela passou pela Amanda e eu passei pelo homem, tcharam!, nos conhecíamos de São Paulo: era um casal que trabalhara na mesma consultoria que a gente.

Ufa!

Papo vai, papo vem, eles nos disseram "Subam! Vale muito a pena! A vista é demais (...)!".
Depois de falarem um pouco daquele percurso, trocamos informações sobre o que haviam feito e o que ainda fariam. Falamos do "cerrado por la nieve" - uma pena! Dentre as trocas, eles ainda não tinham ido ao Tour Astronômico e falamos bastante do frio - depois pensamos que os assustamos demais, mas melhor passarem calor (e duvido que tenham passado), do que frio - e eles nos falaram dos Flamingos - que ninguém nos tinha dito: nem os atendentes das agências, nem o gente boa da casinha de informação ao turista (mas se ele não nos avisou que dentro do Pukará tinha uma trilha para algo mais significativo, quiçá sobre passeios fora do script!).

Definitivamente empolgadas para então subir todo aquele caminho, que na verdade não acabava nunca, eu mesma pensei em desistir várias vezes:
1) Não cruzávamos com ninguém por horas - ou talvez minutos e estar sem relógio era só afobação indevida;
2) Nossa água estava acabando;
3) Precisava muito fazer xixi;
4) Não tínhamos comida;
5) Sabíamos que seria bonito, mas tínhamos dúvida se a beleza valeria a pena;
6) Queríamos desistir, mas depois pensávamos que poderíamos nos arrepender, ao chegar em São Pedro, dar um Google, e ver que era a vista mais bonita da vida!;
7) Tínhamos medo de anoitecer e ficarmos sem lanterna para voltar;
8) Mal estávamos próximas de chegar ao topo e já pensávamos que depois de subir, tínhamos que descer e caminhar os 3km até a cidade;
9) O fôlego parecia ser pouco, para tanto!

Enfim. Mar de conflito mental. Mas enquanto tínhamos dúvida, caminhávamos.

Quando eu realmente pensei em desistir, porque já desacreditava que havia qualquer fim, avistamos um garoto, descendo:
- São quatro horas da tarde. Mas em cinco minutos vocês chegam!

Pensei: "Cinco minutos? Bom, ou é cinco minutos - e sei lá como vou saber se já se passaram cinco minutos - ou vou embora!".

A Amanda disse, rindo: "Agora eu vou até o fim. Se quiser me espera aí".

Finalmente, chegamos!

Uma pena que não tenhamos registro dessa vista.

Eu ainda só pensava em controlar o xixi e a sede e a fome e o stress. E consegui desfrutar, somente depois que li numa  placa que ali, no alto de todos os desertos que já havíamos visitado - de terra, sal, neve e tudo isso misturado - havia uma cruz em homenagem a todos aqueles que foram mortos e torturados em barbáries, cujo genocídio indígena provocado por espanhóis só fora reconhecido em 1984, quando fizeram do Pukará um Monumento Nacional de valorização à vida e de reconhecimento público da história que os envergonha, mas que deve ser lembrada, para não ser repetida.

Alguns minutos depois - ou muitos minutos depois - pouco me importavam todos aqueles meus sentimentos. Me deixei levar pela emoção e energia daquela cruz, daquela história, daquelas ruínas que lá de cima pareciam amontados de pedras desorganizados, mas que guardavam vidas, embora agora todas mortas.

Não me lembro que hora chegamos, ou o que fizemos. Não registrei o tempo. Não me lembro se cansara demais. Se voltamos bem, sem medo de nos perder. Mas me lembro que adentramos São Pedro antes do anoitecer e que, definitivamente, guardava para o universo que o próximo, e último dia, fosse como todos os outros: um exímio caminhar, enquanto caminhamos.


terça-feira, 8 de agosto de 2017

Marte fica na Terra - Atacama | parte III

"A persistência é o caminho do êxito". Charles Chaplin


No nosso terceiro dia, pelo roteiro original, estaríamos no Salar de Tara, uma das paisagens mais lindas do Atacama - segundo nos disseram e lemos - mas como tudo ainda estava "cerrado por la nieve", tomamos um café da manhã reforçado e sem pressa - nada mais agradável do que degustar dos momentos prazerosos da vida, sem se importar com o tempo.


Neste dia, o sol parecia estar mais forte e ventava menos. Assim que viramos a esquina, saindo da nossa pousada, as lojas de aluguel de bicicleta estavam lotadas. Olhei para a Amanda e perguntei "por que, não?". E não que ela tenha resistido à ideia, mas topou com ressalvas por não ser das mais praticantes do esporte.

Esperamos um casal e um grupo de quatro amigas serem atendidos. Eu estava super ansiosa, a Amanda, tranquila no sol.

Um dos rapazes da loja me chamou. Fomos. Pelo portunhol dele, entendemos que nos dariam, além das bikes, "cascos" (adoro essa palavra, mas são capacetes - risos), colete refletor e outras ferramentas, caso precisássemos trocar ou encher pneus - prontamente dissemos que não seria necessário, mas ele reforçou "tem muita pedra". Amanda e eu nos olhamos para um último "será que encaramos mesmo?" e fomos, seguindo um mapa muito mal desenhado e desproporcional, fazer a trilha que nos levaria ao Vale da Morte - ou de Marte; aliás, a lenda é: seria o nome "Morte", porque os burros chegavam cansados da Bolívia, com seus lombos feridos e, ao não conseguirem subir o Vale, caíam no precipício?; ou seria Marte, em analogia à suposta formação do planeta vizinho? Verdades e mitos à parte, em menos de 10 minutos chegamos ao asfalto da estrada que liga São Pedro à Calama e, dois minutos da primeira subida, quem (quase) morreu foi a Amanda: mal respirava - sim, tinha a recente aclimatação, ainda não 100%, mas era falta de preparo mesmo - não que eu seja atleta, longe disso, mas estou mais habituada a exercícios físicos do que ela, claramente. 

Para o fôlego, nos recolhemos debaixo de uma cobertura do que seria um ponto de ônibus e eu ria, afoita para continuar, enquanto Amanda deitava no banco, sem condições de falar nada - apenas respirava e bebia um pouco d'água.

Não sei quanto tempo demoramos para recuperar as forças e, eu, a convencer a Amanda a continuarmos, até enfim voltarmos ao asfalto e, logo, encontrar uma descida gratificante! Assim que ela acabou, chegamos à entrada do Vale de la Muerte e começamos a pedalar em meio a areia, sal, cascalho e terra batida - uma loucura!

Teoricamente o mapa sinalizava que andaríamos por 3km até chegarmos às dunas de areia em que turistas se reúnem com suas pranchas para praticar sandboard. Paramos duas vezes até chegar neste ponto de encontro e, ao descobrirmos ali um bicicletário, nem cogitamos rolar na areia lá de cima, mas estacionar as bikes e continuar o próximo 1km a pé, como algumas pessoas haviam sugerido.

Olhando lá debaixo, chegar até o topo do Vale parecia moleza - para quem pedalou quase 4km, trabalhando as pernas em fazer as rodas girarem nos cascalhos sem que caíssemos, caminhar não aparentava sufoco: ledo engano - e dessa vez que bufou fui eu: mal respirava! Nossa água estava no fim. Meus pés afundavam na areia. A Amanda estava ótima: muito confortável e feliz fora da bicicleta. Agora ela ria. Pensei em desistir, porque quanto mais próximo parecia a casinha em cima do Vale, mais longe ela ficava do acesso. Eu só conseguia pensar: "Paro ou continuo? Por onde vamos subir? Não vejo escadas. Vamos escalar?". A Amanda ria. Às vezes passava à minha frente, tirava zilhões de fotos e, quando eu chegava perto dela, prestes a desmaiar e, ela agora com a mochila nas costas, ela dizia "quer parar? Mas tá quase". Esse desafio era um incentivo. Imagina! Havia chegado até ali, ia parar? E fui. E fomos. E parava. Faltava ar. E subíamos, subíamos, subíamos. Não havia ninguém no trajeto conosco. Às vezes eu até duvidava se o topo existia mesmo ou se não era miragem. 


Quando, num momento de fôlego, olhei para trás e vi o tanto que já tinha caminhado, senti orgulho - e duvido que era só 1km! Mediram errado. Não pode. Corro muito mais que isso - na esteira (risos)! As dunas de areia pareciam um pudim pequeno. Nem via mais as pessoas, nem tão pouco suas pranchas coloridas. Incrível aquela imensidão. A beleza dava a energia que faltava. Subimos, subimos e, numa bifurcação, viramos a esquerda para subir ainda mais e chegar ao topo: "Vamos Babi, 'tá quase". Era quase uma escada. Primeiro o pé direito, subo, caio com as mãos no chão. Um pé de cada vez. Um degrau por vez. Chegamos!

Inenarrável a descrição da paisagem, com o cânion que termina bem em frente ao vale, onde a vista de todo aquele terreno árido, alaranjado e irregular e suas enormes dunas de areia tomam conta de tudo. Se Marte for assim, Marte é lindo! Que "muerte" que nada. O vale é vida. Não tem passarinho, nem flor, nem plantas, nem água, nem nada. Mas é vida. Quando sentei, agradeci novamente. Respirei fundo, numa mistura de buscar fôlego com suspirar de emoção. 

Não sei por quanto tempo ficamos ali. A nossa água acabara de vez. Não havíamos levado nada para comer, eu acho. Mas ali em cima, não necessitava de absolutamente nada, apenas de permitir a consciência sobre meu corpo e sentidos.

A Amanda andou por lá. Não quis sentar. Sumiu. Mas nem dei notícia - só reparei quando ela voltou dizendo "a vista do outro lado é foda também". Mas eu não quis ir. Estava muito feliz com meu planeta. Com aquela vista. Tirei meus tênis. A meia. Deixava o vento circular. Deitei. Me sujei, mas quem se importa? 

Era hora de voltar. Parecia que ia anoitecer. Cogitei esperar o pôr-do-sol ali, mas encarar os 3km de bike dentro do vale, mais uns 2km de asfalto, até chegar, não seria muito oportuno. Decidimos então nos despedir. Difícil. Não queria parar de ver aquela paisagem. Mas precisávamos descer. Descemos, eu afundando a cada passo, e a Amanda voando como passarinho, quase que em silêncio. Só voltamos a nos falar mesmo na hora de pegar as bikes, colocar os coletes e os cascos. A gente não tinha água. Dali em diante só precisávamos seguir em frente e chegar; sem muita pressa.

De volta a São Pedro, com as pernas literalmente bambas, um cansaço feliz, resolvemos pelo almo-janta de imediato, sem banho, para prolongar o sentimento de ter ido à Marte.

Brindamos "a la nieve" por ter caído e por ter feito do nosso plano B, o plano A.



terça-feira, 1 de agosto de 2017

Dos desertos do Atacama | Part II

"Sou feito das ruínas do inacabado e é uma paisagem de desistências que definiria meu ser". Fernando Pessoa

Parecia que o frio da noite anterior não havia passado. O tour astronômico vale muito a pena, mas não conseguimos ficar as duas horas completas: às 21 horas já fazia -6oC e apesar de estarmos com roupas apropriadas, vestidas com nossas térmicas, luvas, gorros e meias, o vento era cruel e parecia nos cortar, misturado com o ardor do tempo seco. 

Ao longo dos quase 60 minutos em que aguentamos de pé, observamos a maravilha das constelações e as histórias narradas sob a perspectiva de cientistas, que sabem também usar de poesia e sensibilidade para desenhar, junto com a gente, através de lasers apontados no céu, o conjunto bilenar de estrelas. 

Logo depois que vimos os anéis de saturno, aparentemente tão próximos de nós, cedemos e buscamos abrigo. Aos poucos os demais turistas foram se rendendo ao frio e, quando nos reunimos novamente, fomos acalentados com um delicioso chocolate quente, que mais bem-vindo pelo sabor, foi para aquecer as mãos quase congeladas. 

Naquela manhã, então, acordamos bem cedo para conhecer o Vale do Arco-íris, que fica na Cordilheira Domeyko, formada há 150 milhões de anos, e que divide a paisagem com o Deserto de Sal e a Cordilheira dos Andes - visual da estrada totalmente diferente dos outros dias: montanhas avermelhadas, polvilhadas levemente pelo branco rústico e delicado de neve com sal.

Apesar de ainda estarmos sob o efeito do frio como se tivéssemos dormido no freezer, esperando o vento gelado perder força pelo sol que acordava, a caminhada pelo Vale é bastante agradável, e embora a nossa guia trouxesse explicações muito técnico-científicas para o meu agrado, elas me despertaram para uma admiração quanto à paixão destes profissionais naquilo que fazem, cada qual na sua forma de contar a história do universo!

A Lorena, essa nossa guia, às vezes, andando a esmo, se abaixava, recolhia uma pedra e dizia "olha que maravilha essa mutação", e explicava em detalhes as variadas cores num pequeno pedaço milenar do mundo, ali, na palma da mão. 

Naquele Vale, conheci a planta rica-rica, famosa por ser curativa quando utilizada como chá e por dar um sabor especial ao famoso drink pisco-sour. Em meio a vento, ventania e um sol que tentava esquentar, discreto no céu azul sem nuvens, andamos por rochas plutônicas e vulcânicas, sendo que a mais "nova" tinha mais de 5 milhões de anos!

Numa bifurcação de paredões coloridos, Lorena sugeriu que sentássemos e fizéssemos um minuto de silêncio, em que cada um escolhesse pelo que calar. Todos consentiram. Foi a escuta mais profunda do silêncio que tive em toda a minha vida; rezei o Pai Nosso, agradeci e contemplei por estar num lugar que se constrói e se reconstrói a cada partícula de vento. Ao sinal sonoro, suave, da Lorena, para nos despertar daquele momento, nos demos conta de que mais de dois minutos haviam se passado e que poderíamos nos calar por muito mais tempo, num verdadeiro exercício de pertencer.

Dali, fomos conhecer alguns Petroglifos, quando logo depois da segunda arte rupestre identificada - lhamas aparentemente "correndo" - um rapaz que estava no nosso grupo urrou de dor: havia torcido o joelho na passagem de uma pedra para outra. 

Prontamente as pessoas se mobilizaram para chamar o motorista da van que nos aguardava num estacionamento distante, outras pegaram neve à beira da montanha para tentar aliviar o inchaço imediato, enquanto outras pessoas davam-lhe apoio para andar, já que não conseguia mais pisar no chão. 

Daquele grito em diante, as pinturas de 2.000 a.C e, mesmo as mais novas, de 500 a.C, se tornaram pouco importantes e só gostaríamos de voltar à São Pedro de Atacama, para que o garoto, que viajava sozinho, pudesse ser atendido, mesmo que com um amparo pontual da Lorena.

A vantagem deste imprevisto é que chegamos ao centro da cidade com o tempo muito curto para almoçarmos e, então, pudemos experimentar da incrível "super empanada" do Café Esquina, um restaurante super pequeno na virada da rua Caracoles com a Domingo Atienza: certamente será difícil encontrar uma dessas - com a massa tão leve e fresca e com o recheio tão saboroso - nos lados de cá.

Renovadas do susto e felicíssimas pela super-empanada, seguimos para o Vale de la Luna; que até aquele dia passara a ser o mais surpreendente: a trilha cansativa, com momentos de caminhada por areia-fofa, que dificultavam as passadas, somado ao fato de estarmos não só no deserto mais alto, como o mais seco do mundo, me fazia perder o fôlego e quase o prumo; até que chegamos à recompensadora vista. Sentei. Deslumbrante! A paisagem em si é uma mistura de dunas de areia, com rochas e ruínas e caminhos que há milhões de anos foram rios e riachos. Sal e neve coabitando, e o por do sol ensaiando para acontecer naquele mar de imensidão, em que nunca esteve pronto, nem nunca estará, reconstruindo-se a cada evento natural - assim como nós!



terça-feira, 25 de julho de 2017

Deserto do Atacama | parte I

"Eu sempre amei o deserto. A gente senta numa duna de areia. Não se vê nada. Não se sente nada. E no silêncio alguma coisa irradia". O pequeno príncipe.

Saímos às 8:05 da manhã de São Paulo para Santiago, no Chile. Chegando lá, ao passarmos pela imigração, despachamos novamente a bagagem no embarque nacional para voarmos até Calama, aeroporto mais próximo de São Pedro do Atacama - a cidade que acolhe os transeuntes, que como Amanda e eu, se arriscam a lidar com as mais variadas temperatura e paisagens, que só a complexidade do deserto é capaz de pintar.

A Amanda é uma dessas gratas surpresas da vida - quando eu pedi demissão pela 1a. vez no meu último trabalho - e de novo (saí só na 4a. conversa de "acho que não estou mais feliz nessa relação") - ela tinha acabado de assumir a gerência da área em que eu trabalhava e com muita transparência, vulnerabilidade e confiança, teve um papo bem reto comigo, do tipo "cala a boca e rema". Assim, doce, #sqn, tomei um susto de que ainda tinha muito o que fazer ali e que apesar da pouca poesia dela, tive certeza de que seria uma liderança necessária para meu amadurecimento e aprendizado.

Desde este dia, ela se tornou uma referência de competência sem arrogância, de escuta com orientação e de foco com olhar para desenvolvimento e uma irritante humildade de não se reconhecer tudo o que é.  Dos dias trabalhados em diante, ela foi deixando de ser chefe, passou a ser mentora e, depois do Atacama, uma amiga para todo o sempre.

Nós, então, nessa energia de experimentar o meio do nada, que apreciávamos já da janela do avião, desembarcamos em Calama e o traslado - que diferença, Filipinas! - nos esperava com a plaquinha de identificação, pronto para nos dirigir por uma hora e meia, em uma estrada de linha reta, com momentos de curvas, mas não tão sinuosas, contornada por montanhas marrons e planície cascalha, acompanhada de um céu azul claro, mas forte, com poucas nuvens, que nos conduziu, como personagens em um cenário inenarrável, até São Pedro do Atacama.

Ao chegarmos no hotel, tomamos banho e, famintas, encontramos, sem querer, andando a esmo, o Lola - bar e restaurante - que era na verdade mesmo um karaoke! Bebemos vinho tinto acompanhado de uma "empanada gigante" de camarão com vinho branco, fizemos amigos - brasileiros, é claro - cantamos "baile de favela", como se estivéssemos n'algum boteco do Brasil, dançamos no palco com o Danilo - donde estás Danilo? - e voltamos para o hotel, quase madrugada, sem saber se era frio ou histeria.

No dia seguinte, acordamos até que cedo, para a animação festiva da noite anterior, tomamos café e fomos caminhar pela rua central, Caracoles; ver os artesãos, trocar dólares por pesos chilenos e comprar os passeios.

O dia estava lindo, com céu azul e sem nenhuma nuvem, a lua aparente e bela; até que entramos para buscar informações de tours, quando o francês que nos atendeu perguntou se já tínhamos ideia do que fazer. 

Orgulhosas de termos feito o dever de casa, porque lemos bastante e conversamos com várias pessoas que tinham vindo ao Atacama, mostramos nosso roteiro e o gringo começou:
- Salar de Tara? Fechado!
- Geysers del Tatio? Fechado! 
- Pedras Rojas? Fechado!

Juro! A decepção não foi nada discreta: Amanda e eu nos olhamos é só pudemos dizer: "que merda, hein?". E a explicação dele foi que havia caído muita neve nas duas últimas semanas e os acessos estavam fechados, por segurança - curioso que ninguém nos havia sinalizado deste risco, nem mesmo lemos nos blogs que a temporada não era das melhores.

A parte boa desse imprevisto pouco agradável foi que logo me empolguei com a possibilidade de conhecer lugares ainda pouco vistos, pelos quais estaríamos abertas a sermos surpreendidas, sem  que tivéssemos lido os scripts padrão - afinal, "um bom viajante não tem planos fixos nem tão pouco a intenção de chegar" (Lao Tzu).

Caminhando ainda pela Caracoles, esperando a tarde chegar para nosso primeiro passeio, achamos a agência que faz o Tour Astronômico, com a qual eu já havia pré-reservado por email, e precisaríamos pagar para confirmar. Embora nossa reserva fosse pr'ali dois dias, o agente sugeriu que fizéssemos naquele dia, porque havia confirmação climática positiva - o que ele não poderia garantir para os próximos dias, pois a previsão era de neve. Assim, garantimos a vaga das 21 horas para apreciar as estrelas e todo aquele universo a olhos nu.

Com nova energia, almoçamos - eu, um salmão acompanhado de batatas e creme de cenoura com coco ralado; a Amanda, um frango grelhado com cebolas caramelizadas, ovos e batatas rústicas - para então experimentarmos do roteiro não planejado: Laguna TebiquincheOjos del Salar.

Pegamos uma estrada até Toconao, comunidade da vizinha São Pedro, similar ao caminho do aeroporto, mas os Andes pareciam mais próximos e maiores, como se fossem pétit-gateus gigantes, super polvilhados por açúcar refinado: belíssimos! 

Em Toconao, caminhamos por 45 minutos pelas ruínas de rochas vulcânicas e um oásis, composto por árvores muito distintas umas das outras, inclusive frutíferas (pêra, laranja e figo), um rio de águas do degelo dos Andes e muita sombra, que trazia bastante frescor, em meio ao clima seco e quente do deserto: conhecemos o tal do microclima, ali.

Dali partimos de van por mais 45 minutos para relaxar na Laguna Tebinquinche, uma das paisagens mais lindas em que já pude estar e que, com o céu claro, sem vento, as nuvens pareciam algodões em seu lugar, dispostas apenas para serem contempladas. 

No pôr-do-sol, o rosa era quase choque, e o laranja, solar. O lago era um espelho límpido e natural, sem refletir qualquer falha, qualquer dúvida de imagem. E, antes que chegássemos até ali, avistamos dois outros lagos de água doce no meio do nada, tirando quase todo o fôlego já comprometido pela altitude.

Para um primeiro dia iniciado com um sobressalto, o inesperado-esperado do que só o deserto pode criar se fez ainda mais belo. Aliás, “o que torna belo o deserto é que ele esconde um poço em algum lugar.” (Saint-Exupéry)



terça-feira, 18 de julho de 2017

Não acaba o que não tem fim | Filipinas

"Dificuldades preparam pessoas comuns para destinos extraordinários." (C.S. Lewis)
A saída de El Nido foi muito feliz: depois de Shimizu Island, ainda paramos por uma hora e meia em Seven Commando Beach - uma praia simpática, com coqueiros e algumas cabanas que finalmente deram sombra - onde pude, então, relaxar, admirar por completo toda aquela experiência e me despedir de uma das viagens mais incríveis que pude vivenciar. 

Quando cheguei de volta ao hotel, tinham me trocado de quarto, para um melhor, pelo mesmo preço - tentei entender o porquê, mas não consegui: importante mesmo foi que no meu último dia tomei o melhor banho e deitei na melhor cama de todos aqueles dias.

À noite, andei pelas ruelas confusas e dentre as inúmeras e até charmosas opções, acabei escolhendo um restaurante de cozinha mediterrânea à beira mar e me esbaldei com uma salada maravilhosa - finalmente!

Na manhã seguinte, antes de seguir para o aeroporto de El Nido, fui andar em busca de souvenir e foi outra decepção - arrependi por não ter comprado em Boracay, que apresentava melhor estrutura e esperei encontrar algo no aeroporto de Manila, já que em El Nido o que comprei, como lembrança, foi um chaveiro e um imã de madeira, pintado à mão.

Em menos de uma hora caminhando, transpirei mais do que em horas de academia. Calor úmido e sol forte, ainda que cedo, e que, com a falta de energia na ilha - ela é interrompida algumas vezes durante o dia, por horas - nem pude me refrescar debaixo dos ventiladores-furacão das lojas ou do ar-condicionado do hotel.

Me restou sentar à sombra de uma marquise e observar o movimento, até a máxima hora do banho e check out, para encarar as quase 30 horas de voo até chegar ao Brasil: o resto é história.

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Chegando ao aeroporto de El Nido, parecia que estava entrando em uma reserva florestal - estrada de terra, muito mato, muito, muito mesmo. Um primeiro guarda perguntou algo para o motorista, continuamos. Um segundo mocinho, de pé descalço, bermuda e camiseta surrada nos parou logo adiante e perguntou o nome do meu hotel(?). Ao enfim desembarcar no que parecia a casa de alguém - no meio do mato, claro - um outro rapaz, dessa vez calçado, mas sem qualquer uniforme de identificação, pediu cópia da minha passagem aérea, abriu uma lista de três páginas fixas numa prancheta, achou meu nome e disse: "You can go, ma'am". 

Fui, e a sala de espera estava fechada. Esperei. Vi movimento depois de uns 20 minutos e havia sido aberta, com fila. Entrei na fila e logo pude ver dois caras, agora uniformizados e de luvas, abrindo mala a mala, mochila a mochila: era a inspeção de segurança! 

Ri, desacreditada, esperando chegar a minha vez e me lembrei de que deixei uma calcinha - limpa, ufa! - bem por cima de tudo. Ri ainda mais - bom, azar (ou sorte) do policial. 

Passei por eles tranquila e, na hora H, nem me lembrei da calcinha - acho que nem ele - distraí observando os gringos com seus mochilões enormes.

Cheguei na sala de espera, onde, num dos cantos, tinha um buffet tipo daqueles coffees corporativos, montado. Era quase três da tarde, estava só com o maravilhooooso café da manhã (#sóQuenão) e fui até a mesa, pensando: "neste fim de mundo, nessa desestrutura, qualquer coisa deve custar meu rim". 

- O que é isso, moça?, perguntei - em inglês, claro - para uma jovenzinha que estava em pé, com as mãos para trás, parada, atrás da mesa.
 - [bla bla bla] de arroz.
(Claro que teria arroz né? O que se come sem arroz nesse país?).
Ri.
- E isso? 
(Juro que parecia pão de queijo: daria meu rim e meu fígado por eles).
- [bla bla bla bla].
Não entendi nada, mas perguntei:
- Quanto custa?
- It's free, ma'am!
Pensei: "gente, to burra! Quando entendo o inglês deles, sonho com uma resposta ideal!".
Insisti:
- Desculpa, moça. De graça? Não pago?
- Yes, ma'am, it's all free!
- Incluindo as bebidas? Café, água, chá gelado, suco?
Yes, ma'am, it's all free!
Quase comemorei com um "uhul, tô no paraíso!", mas me contive e delicadamente só peguei dois bolinhos que não sei do que eram e que, certamente, não tinha nada de queijo, só açúcar.

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Fiquei quase três horas no "aeroporto", tentei antecipar meu vôo, mas para isso sim, o pagamento seria um rim, um fígado e os dois pulmões - não valia a pena, mesmo!

Meu receio era atrasar demais e eu acabar perdendo o vôo em Manila, pois, relembrando a chegada, eu desceria no desembarque doméstico, pegaria o ônibus, faria check-in (não conseguia por celular, por causa da conexão) e despacharia a mala no saguão internacional, para depois passar pelo raio-x, imigração e, então, voar para Dubai - depois São Paulo.

Ao mesmo tempo que estava agoniada, sentia uma paz imensa. Uma alegria inenarrável de ter vivido aquilo tudo. Sentada, entre bolinhos, café e água, observando os passageiros, reativei várias sensações, desde o primeiro dia. Revi cada foto, incansavelmente. Agradeci por tudo e, inclusive, pela coragem de ter ido sozinha e de ter experimentando tanto ao meu gosto e ao meu tempo. Por ter criado tanta consciência de várias verdades e de que, sobretudo, "o lugar certo, senhora, é o seu coração. O lugar certo é sua interioridade. O lugar certo é a profundidade de sua alma e não um lugar geográfico. Há muita gente no 'lugar certo' com o coração errado".

terça-feira, 11 de julho de 2017

O penúltimo do último nas Filipinas | parte 6

"E então você será livre para explorar a natureza e a fonte do seu verdadeiro ser". Michael A. Singer

De fato, o dia anterior trazia o melhor grupo: hoje já éramos 19, sendo que de estrangeiros somente eu e os dois alemães de ontem - um super querido e fofo, o outro, bem alemão (risos) - e os demais 16, filipinos.

Trinta e cinco minutos depois de sairmos de El Nido, ancoramos para conhecer a "Small Lagoon", que, acho, venceu a beleza de Maniloc Shrine e Hidden Beach, se é que é possível compararmos a contemplação do belo.

Como as demais maravilhas, o estonteante não é logo que se chega, embora só a chegada já valesse por tudo: fui andando dentro d'água (tenho 1,71m de altura e a água batia na minha cintura: acho que dá para os pequenos irem numa boa - risos), atravessei por debaixo de duas pedras, nadei - aí nadei mesmo - por uns três minutos e cheguei à tal laguna: não dá para descrever!, aliás, quando tirei a cabeça da água e os óculos, e olhei para cima e vi aquela pintura do céu azul-claro, mas forte, decorado por poucas nuvens que pareciam algodão doce e todos aqueles paredões que fechavam as águas, ouvi o uníssono "ohhhhh" de outros turistas que chegaram junto comigo: é de rir alto, chorar e bater palma, pela beleza da natureza - Deus tinha que ter descansado um dia só depois de fazer Filipinas, depois continuava o resto. 

Ali, na Small Lagoon, a profundidade do mar é tamanha que não vi nada, nem peixes, corais ou plantas; meu corpo sentia a temperatura quente e fria, ao mesmo tempo - aliás, no pedaço em que andei a pé, a água era tão quente que dava para suar. 

Saindo da "Small Lagoon", chegamos à Big Lagoon em poucos minutos, mas o barqueiro apenas navegou devagar para tirarmos foto, já que não desceríamos - e achei justo, porque é sim muito bonito, mas raso; então não havia muito o que aproveitar.

Tudo corria bem, quando na saída do lago um caiaque com três gringos bateu na gente, de leve, e virou. Nada anormal, até que uma moça sai da água gritando "my goPro, my goPro". Nisso, os nossos quatro ajudantes filipinos pularam na água com snorkel e pé de pato e a francesa, aos prantos, não sabia se chorava ou se gritava; enquanto os amigos tentavam acalma-la: "relax, relax".

Coitada da moça!
Nessas horas eu sou "relax, my a**". 
Eu já estava apegadíssima pelo meu celular, sabendo que se perdesse as fotos tiradas da superfície, "tudo bem" porque estariam na nuvem; agora imagina se fossem fotos de dentro d'água, que só pertenceriam às lembranças, além do lugar de origem?: foda! Perder estes dispositivos que guardam memória são de cortar mesmo o coração e não há consolo que acalme - "found it! Found it ma'am". 
Ufa! Só mesmo achar a "goPro" acalmaria a moça. E nós, agora calmos, mas rindo, seguimos para Shimizu Island, nosso cenário do almoço.

Depois do grill, mas não à deriva - já que éramos 19 - os filipinos montaram uma mesa na areia e comemos em pé mesmo, olhando a vista. Em Shimizu havia milhares de mini água-vivas e tive receio de nadar, embora todos dissessem que aquelas eram inofensivas.

Fritando, literalmente no sol, que ainda não era tão forte quanto em Boracay ou Honda Bay, mas que naquela hora brilhava sem a proteção das nuvens, me lancei ao mar e em menos de um minuto vi bem próximo uma água-viva maior: parei por ali e fiquei, sem me mexer muito, atenta, apenas me refrescando.

Já passando das 13 horas, chegando em Secret Lagoontive o mesmo cansaço da última praia em Honda Bay: sal, sol. Queria fazer algo diferente. Observando, vi que até à praia dava para ir andando, de novo com a água pela minha cintura, e arrisquei levar o meu celular, enrolado na minha canga, que segurava suspensa pela minha cabeça, para ver se conseguia fazer uma foto dessa diferente perspectiva - da areia: deu certo! 

Fotos batidas, celular (lembrando do "my goPro", "my goPro") seguro no barco, pulei de volta para a água - e que delícia!: assim como em Maniloc Shrine, você acha que está nadando no quentinho-raso, de repente sente o geladinho da profundeza-azul-petróleo e se perde nela: No mar em que o barco atracou para irmos à Secret Lagoon foi a vez de encontrar a família da Dory reunida, toda feliz, naquele azul-com-amarelo-quase-fluorescente: daquele momento em diante, todos nos encontramos.

terça-feira, 4 de julho de 2017

El Nido: uma aquarela natural | parte 5

"A vida neste mundo seduz por sua própria beleza e pela harmonia que mantém com todas as pequenas coisas belas que nos cercam". Santo Agostinho. 

Optei por ir para El Nido de carro - desde o planejamento no Brasil achava que eram voos demais e li referências de que encarar seis horas de estrada valia muito mais a pena do que enfrentar aeroportos e atrasos - e valeu! 

A viagem foi tranquila e, de novo, porque gosto, fui acesa observando as pessoas ao longo do caminho, a vista para o mar, muitas vezes privilegiada por ser um sobe-e-desce-e-curva. 

Paramos duas vezes e desci só na primeira, por necessidade de esvaziar a bexiga, já que meu apetite sumia assim que meus outros sentidos assimilavam o entorno - sujeira, calor, mosquito, cheiros estranhos e hábitos já ditos. 

A chegada em El Nido em si é horrorosa!: confusa, com mistura de árvores, lixo, tuk-tuks, pessoas e animais - de todos os tipos. Se eu não tivesse visto fotos eu desacreditava que o lugar para o qual estava indo era o mesmo em que chegara: inenarrável a sensação de vistas tão distintas uma das outras, onde parece mesmo que paraíso e terra-mundana não coabitam.

Neste cenário de caos e imundice, chegamos ao meu hotel: diferente dos outros dois e, talvez, próximo ao de Boracay, o atendimento era ruim, a recepcionista não falava inglês e o aspecto era aparentemente daqueles puxadinhos, em que alguém teve a ideia de "por que não um hotel?", sem qualquer experiência ou noção do ramo - nestas horas, me impressionava com a diferença positiva que o Brasil tem tomado nos últimos anos, acerca do turismo.

Incômodos carnais à parte, banho, jantar, descanso e a preparação para o primeiro grande encontro: Helicopter Island, Hidden Beach, Star Beach, Secret Beach e Matinloc Shrine.

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Toquinho quando compôs Aquarela certamente não tinha conhecido El Nido, porque se tivesse, de alguma forma, ela estaria representada por se tratar mesmo de uma pintura, como jamais vista.

A companhia dessa vez foi a melhor de todas: grupo pequeno e silencioso, éramos ao todo oito pessoas, sendo cinco jovens filipinos - um casal e três amigas - e dois jovens alemães - dia de paz, sem tumulto ou falações sem fim para desfrutar da literal maravilha do mundo.

Começamos por Helicopter Island, surpreendente pelo sua composição mista entre montanhas e florestas, água azul escura, de mar profundo, mas transparente, quando debaixo d'agua buscava encontrar meus amigos-peixes, lindos e coloridos, variando entre amarelo, laranja, azul, vermelho e verde, a depender do sol - que, por sinal, brilhou com leve intensidade: El Nido amanhecera nublado e o dia se passou entre nuvens, com brisas a todo instante, dando uma trégua para a pele e o mormaço.

Dali seguimos navegando sem qualquer horizonte que não o mar azul e as pedras rochosas, quando o barco começou um movimento leve para a esquerda e entre duas montanhas avistamos uma praia de areia branca - o que me pareceu uma espécie de oásis. Pulei, e dali de onde o barco atracou fui nadando até a praia, fazendo o movimento inverso de todos aqueles dias. No caminho, encontrei infinitas belezas subaquáticas e, na volta, a família do Nemo reunida: coisa mais linda!

Da Hidden Beach, agora revelada, paramos na Star Beach e, enquanto eu via peixes azuis e verdes, além de corais rosas, lilás e vermelhos, passando em segundos de uma zona clara-transparente-fundo-areia-branca para um imenso azul-petróleo sem fundo, nosso almoço era preparado dentro do barco, na grelha - e, talvez, destes oito dias, esta tenha sido a primeira refeição local boa, em que repeti, inclusive - e a melancia - agora vermelha, não mais amarela - foi mesmo a sobremesa e não minha refeição principal - ou eu já tinha me adaptado(?)!

Em menos de 10 minutos depois de finalizarmos o almoço, o barco atracou em um dos enormes paredões que abraçam o mar de El Nido - e pensei: "daqui pra onde, meu filho?". E o guia prontamente respondeu: estávamos prestes a entrar na "Secret Beach", que como o nome sugere, só pode ser acessada ao nadarmos por debaixo de duas pedras - não precisa mergulhar: dá para passar fazendo o inconfundível nado do "cachorrinho", com a cara para fora d'água (risos), ou usando coletes: vai por mim!; tinha muita vovó acessando a belezura (risos). 

Pulei, porque ali o mar já é fundo - e permanece até quase chegar na areia - e fui feliz até as duas pedras, nadando - uma outra coisa simples que fez da minha viagem mais bem aproveitada e incrível foi ter levado meus óculos de nadar. Em todo passeio há snorkel disponível, mas duvido que são higienizados e na grande maioria das vezes você tem que pagar para usar - que ok, não é caro, mas preferi mil vezes o meu simpleszinho, que me possibilitou vivenciar o encantamento por dentro do mar e proteger meus olhos do sal; aliás, achei Secret Beach pesadíssima neste sentido, literalmente: da até para boiar, de tão densa, depois que você atravessa por debaixo das duas pedras e se vê quase que numa pequena lagoa privada, naquela mistura de cores de azul e verde, com a mata das montanhas rochosas dando o tom.

Para fechar o dia, chegamos em Matinloc Shrine, uma propriedade privada, que por anos abrigou missões católicas. Ali atracamos, entramos na ilha (pagamos 100 pesos, o equivalente a quase sete reais) e andamos. Subi uma escada de pedras e me deparei com a vista de tudo aquilo que tínhamos percorrido - e mais um pouco: me lembrou Ariel's Point, o ponto alto de Boracay. É de tirar o fôlego. Embasbacar. Abrir a boca. E agradecer. 

Fotos tiradas, o calor tinha voltado um pouco - ou era o êxtase. Pulei no mar para me despedir daqueles corais iluminados, peixes, estrelas do mar e centenas de outras composições do desenho da Aquarela que eu não sei atribuir nome; apenas significado.

terça-feira, 27 de junho de 2017

Namastê II* - Filipinas | parte 4

"Não importa o que os outros fazem, a menos que você decida que isso importa para você**". Michael A. Singer 

Cheguei no hotel de Puerto Princesa e a recepção foi totalmente diferente da de Boracay: perguntaram do atraso do meu voo e se eu queria um lanche, por estar aparentemente cansada. Ah e, obviamente, falavam inglês; além do que a estrutura deste era bem mais aconchegante e confortável: enfim, relaxei.

No dia seguinte, acordei ao som do latido de um cachorro, galo cantando e criança chorando, sem ter me dado conta de que não havia feito reserva para as ilhas no dia anterior - nessa de chegar tarde, acabei não conferindo as opções - mas depois do café (arroz-papa, peixe frito, macarrão com atum e carne cozida com cebola; ovos mexidos e pão de forma), me dei ao desfrute de deitar na piscina e descansar, além de nadar um pouco, até a hora do "City Tour", que foi o que consegui agendar da manhã para a tarde.

Um pouco antes do guia chegar, resolvi sair a pé pelas redondezas e ver como era, onde eu estava; acabei pegando um tuk-tuk para aproveitar a experiência, sob o pretexto de comprar água e protetor solar: é uma arte dirigir e sobreviver nesse amontoado de maquininhas que se comportam como formigas, mas "causam" como manadas de elefante e, logo pelos poucos metros que andei, percebi que estava no meio do mato - ambas as laterais pelas quais olhava eram repletas de mata fechada, o que explicava a sinfonia da manhã: sons ausentes em Boracay.

À tarde, pelo city tour, foi interessante, embora penoso, compartilhar do modo de vida dos Filipinos, mais próxima da realidade deles: 35% só da população é urbana, os outros 65% prevalecem no estilo de vida rural que vi na estrada entre Boracay e o aeroporto - e um pouco na aventura da manhã: casebres sem água, luz ou esgoto; muitas crianças e adultos na rua sem asfalto tentando vender de tudo um pouco em barracas que se assemelham às dos ambulantes de comida nas avenidas de São Paulo ou; não, pior: bem pior! Aliás, pense nas barracas de yakissoba nas estações de metrô - mas ainda não é isso. Ok. Sem comparações; são diferentes e ponto.

Puerto Princesa me lembrou muito Colombo, no Sri Lanka. Em alguns momentos quis chorar, não sei porque. Uma memória emocional vendo aquelas pessoas, tão sem nada, mas que me pareciam tão felizes: que coisa!

O clima em Puerto Princesa estava bem mais ameno do que em Boracay e menos úmido, mas ainda assim, beirando os 30oC, céu azul e sol rachando. A cidade em si tem zero atrativo, é bem precária, mas é a capital de Palawan - um arquipélago de 1708 ilhas, sendo que a 30 minutos dali, de carro, se chega em Honda Bay (que significa "águas profundas"): um conjunto de 16 ilhas!

Passado o city tour, tive a melhor refeição, finalmente, dos últimos cinco dias: faminta, pedi uma massa com camarões no hotel e senti dignidade (risos), até mesmo porque o dia seguinte demandaria energia, afinal, visitaria três das 16 ilhas de Honda Bay: Starfish Island, Luli Island e Cowrie Island.

Mais interessante do que as praias em si foi o percurso: eu, para variar, a única ocidental, mulher e sozinha, o que dentro da van despertava olhares atentos dos outros turistas.

A primeira ilha, Starfish, foi a que mais curti estar, aproveitar a água e a paisagem - as demais me pareceram pequenas ou mal distribuidas com a logística de pessoas e barcos; aliás, parênteses: vim em "baixa temporada", talvez em alta, não valesse a pena pela aparente espera e fila, clássicos de destinos superprocurados.

Ali em Starfish almoçamos (arroz-papa, frango, peixe e qualquer coisa do porco na grelha, alguma coisa com berinjela, molho de pimenta, melancia e manga verde - não madura). Comi basicamente arroz e peixe, que não tinham gosto de nada - ah!; aquele dia minha boca era puro curry, porque o arroz me parece "cozido" mesmo sem tempero - mangas e quase a melancia inteira: sorry guys!

Neste dia a comida em si não me chamou a atenção - acho que até esperava por este cardápio - mas o hábito dos filipinos de se alimentarem com as mãos - aliás, sem talheres, porque com as mãos todos comemos; ufa!, e os talheres deles são garfo e colher, sem faca - fazendo uma montoeira de barulho com a boca, isso eu não consegui lidar: comia, pedia licença e saía da mesa: teria sido eu menos observadora ou menos incomodada em outras experiências similares?** 

Ao longo da tarde, fomos de ilha em ilha e lá pelas 15 horas eu já estava exausta do sol e sobe-e-desce dos barcos: impressionante como estarmos presente no momento faz do tempo parecer mais longo e suficiente para o que nos pretendemos, quando inclusive exercitamos com foco, paciência e entendimento as escolhas.

A beleza da cor do mar em Cowrie Island me fez relaxar: comprei uma cerveja, desfrutei muito tudo aquilo e horas depois me preparava para aquele que estava por ser a grande razão de tudo: El Nido.

*Uma forte referência à minha experiência no Sri Lanka. Como é misturado o que sinto por essas pessoas. Como é mágico, misterioso, mas, sobretudo, bonito. Meu "vida longa" vai para todos os asiáticos, com muita gratidão por me ensinarem tanto". E eu decidi que isso importa para mim.
*Não adesão à nova regra gramatical.