terça-feira, 19 de setembro de 2017

10 perguntas para você candidatar (a si mesmo)

"Sou a única pessoa no mundo que eu realmente queria conhecer bem". Oscar Wilde.

Eu sei que é difícil buscar oportunidades de trabalho. Desanima quando, principalmente, os portais de vagas e cadastro de inscrições ou CVs têm contador e você adquire a informação das centenas, talvez milhares, de concorrentes contigo.

O sentimento de frustração é quase perene. Quando alguém responde um e-mail ou uma mensagem ou dá qualquer sinal de solidariedade, reciprocidade ou respeito mesmo, é como se um fiapo de luz virasse uma labareda; de tão importante que é nos sentirmos acolhidos e enxergar, neste outro, que às vezes nem sabemos quem é, um sujeito essencial para que nossa esperança seja uma realidade e não só um sentimento.

Da mesma forma que eu acredito que "buscar emprego" não seja fácil, nem confortável, também acredito que nos dedicamos pouco a nós mesmos, antes de aplicar para uma vaga, buscá-la ou até mesmo tentar encontrar pessoas que possam nos ajudar, com orientações, indicações ou recomendações; afinal, quando alguém nos pergunta "o que buscamos", tendemos a travar: na hora H, tudo o que parecia óbvio fica obscuro e nosso discurso perde a fluência que o pensamento parecia oferecer.

Minha sugestão? Responda para si mesmo porque você se candidataria. No que você é bom. No que verdadeiramente acredita: 

1. Como você se vê fazendo o que está escolhendo fazer?
2. Por que você escolheu o que escolheu, em termos de vida e carreira, até aqui?
3. Quais experiências você acumulou até hoje?
4. Por que razão você pediria (ou pediu) demissão? Qual a razão da sua saída nos empregos anteriores?
5. Como seu cérebro funciona?
6. O que você gosta de fazer?
7. Como é seu humor?
8. O que você pretende realizar? E por que realizar aqui; nesta oportunidade?
9. O que te levou a trabalhar nos lugarem em que trabalhou? Quais são os seus méritos?
10. Quais são seus fracassos?

Nada disso está no seu CV, nem nas respostas das fichas de inscrição. Mas sem refletir sobre questões como estas, "qualquer caminho serve" - e para "qualquer caminho", "qualquer pessoa" cabe.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

R&S e a não empatia (both ways)

Os candidatos reclamam dos recrutadores. Os recrutadores reclamam dos candidatos. Não quero entrar no que é ou está certo ou errado, afinal, como diria Marisa Monte, numa paráfrase a um amigo "(...) se tem alguém olhando não é mais verdade: vira versão".

Observo candidatos que esbravejam quando os recrutadores não dão retorno e recrutadores que dizem receber CVs demasiadamente inadequados e que, portanto, o volume não comporta o tempo e espaço por ser uma pessoa só e que não fazem por mal, apenas "não dão conta".

Todos têm seu lado, seu ponto de vista, seu argumento.

De ambos, do que sinto falta, é da empatia, da tal "humanização do processo", se é que precisávamos falar tanto disso, em se tratando de duas pessoas - o recrutador e o candidato.


O que vejo é foco no processo: um CV e uma vaga. Uma job description e um perfil em bullet points.

Fico me perguntando se o candidato quer mesmo aquela vaga ou se é a que apareceu. Se a cada vaga que ele se aplica ele muda para adequar melhor. Se ele lê sobre a empresa, se ele tenta achar amigos de amigos de amigos que eventualmente trabalham lá e que podem dar alguma força; se ele busca em plataformas que compartilham avaliações como é mesmo trabalhar ali, etc.

Me pergunto se o tal recrutador, antes de postar a vaga, se dedica em pensar, mesmo que rapidamente, na pessoa que pode exercer aquelas atribuições, contribuir, mas também aprender, ou se pensa em tags de palavras que possam trazer mais e mais aplicações para formar aquele bando de dados e se gabar de buscas futuras, mesmo sabendo que não vai voltar naquela pastinha em meio a tantas outras que tem na rede/servidor da empresa.

Na grande maioria das indústrias que estão se transformando sempre há, como um ponto alto em ser competitivo e portanto, melhor, o fato de colocar "a pessoa no centro" e então desenhar experiências, que, de um modo geral, otimizam resolução de problemas em que essa "pessoa" é o cliente - é o tal do design thinking.

Muito já se fala, então, em colocar o colaborador no centro das soluções para os problemas que ficam atribuídos ao RH. Infelizmente, pouco  - quase nunca, vai, sejamos honestos - vejo isso acontecendo nas organizações no Brasil, principalmente para estas questões de recrutamento e seleção.
Do meu ponto de vista, se o RH tem dificuldade em "fechar a vaga", o candidato é um problema importantíssimo dele, que vejo ser isolado e passa a ser objeto, quando deveria ser sujeito. Por outro lado, também acredito que o próprio candidato pode ir mudando sua postura, mesmo que não veja diferença na receptividade do recrutador. 
Se continuarmos agindo porque o outro "também age assim", a minha versão vai sempre fazer mais sentido que a sua e nós dois sairemos perdendo.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Novos pontos de Vista

Nossa maior fraqueza está em desistir. O caminho mais certo de vencer é tentar mais uma vez.” Thomas Edison.
No último sábado em São Paulo, a Globo News, através da sua iniciativa Prisma - Novos Pontos de Vista - fechou metade do quarteirão de uma rua na região de Pinheiros, fez parceria com quatro co-workings e trouxe centenas de experiências gratuitas ao público, em forma de conversas, debates, palestras e oficinas, realizando um espetacular festival de Empreendedorismo e Inovação.

Por sorte, apesar de eu ter me inscrito apenas em quatro conversas, em algumas sessões coloquei meu nome na fila de espera e consegui entrar, podendo participar de momentos-surpresas, para os quais não havia planejado: melhor impossível!

Ouvi as jovens Ana Carolina Freitas e Giane Brocco falarem das pesquisas e aprendizados que têm adquirido com a biomimética: "A ciência que se inspira na natureza para argumentar a funcionalidade de produtos e de tecnologias". Ao lado do professor-doutor Wilson Nobre, discorreram sobre o mundo atual da abundância e sobre a urgente necessidade de nos conectarmos com a natureza, respeitando-a e aprendendo com ela, ao invés de explorá-la. 

Dentre alguns exemplos incríveis, mostraram, a partir de uma experiência de observação da proliferação de um fungo em flocos de aveia, que pesquisadores no Japão "capturaram os mecanismos-chave necessários para o fungo conectar suas fontes de alimento de uma forma eficiente, para construírem redes de comunicações e transportes mais seguras, mais eficientes e mais custo-efetivas, a partir das rotas traçadas pelo fungo".*

Depois, em duas apresentações energizantes sobre Cidades Inteligentes, a jornalista Natália Garcia e o arquiteto e urbanista Washington Farjado falaram sobre uma nova perspectiva em se atribuir inteligência nas cidades, excluindo a tecnologia como uma ferramenta fundamental para que a melhoria aconteça, trazendo exemplos de mudanças ocorridas em diversos contextos, de Veneza na Itália, a Portland nos Estados Unidos, passando por Rio de Janeiro, Brasília e São Paulo. Neste, especificamente, fiquei abismada em saber que três milhões de pessoas se deslocam diariamente entre a zona leste e o centro de São Paulo - imaginem movermos um Uruguai todos os dias? - e, meu novo prisma, ao final, foi passar a pensar sobre como vivem os refugiados da nossa própria experiência urbana, tão pouco humana.

As duas participações seguintes foram as de bônus!: "Esgoto para beber: a água de reúso potável é uma ótima solução para a crise hídrica mundial. Mas precisamos filtrar o preconceito", com Eduardo Pacheco, atual diretor-técnico do portal de tratamento de água, que também mostrou, inclusive no Brasil, parcerias público-privadas que têm feito do esgoto água para beber.

Todas estas atividades foram no Impact Hub. Dali segui para o Ahoy Berlim para tentar a sorte - que me atendeu - e assistir ao painel "Negócios de impacto social: quando lucro é resultado do bem que você faz ao mundo", em que o meu novo olhar foi para ações voltadas aos direitos da criança e do adolescente, principalmente através das iniciativas do ErêLab - que eu particularmente não conhecia e amarrou bem a prática com a teoria do que é empreender socialmente.

De volta ao QG, a cereja do bolo foi o painel "Unschooling: a escola revolucionária que educa para o futuro", intermediada pelo jornalista André Trigueiro e apresentado por Leandro Herrera, fundador da startup de educação Tera, "que utiliza um método inovador de ensino baseado em projetos para formar uma nova geração de líderes em design, tecnologia e negócios na era digital" e pelo maravilho mestre José Pacheco, criador da Escola da Ponte, "uma escola sem séries, sem prova, sem “aula” e focada na autonomia e protagonismo do aluno".  

Dentre as várias perspectivas que eles trouxeram sobre o papel da educação e sobre o movimento contrário a ela que infelizmente as políticas públicas do Brasil adotam atualmente, a mais impactante para mim, que, utilizando as palavras do André, me "descortinou as ilusões", foi a da perversão do discurso que se há versus a pobreza das práticas e a obscenidade do silêncio dos pedagogos que são utilizados como objeto e não sujeito.

Sobretudo, que a curiosidade é a matéria-prima da aprendizagem e que sem o exercício de gerar significado, para atribuir vínculo, nenhuma forma servirá!

Ao final de tantas horas com incontáveis exemplos positivos, escolher a sua inquietação e tentar resolvê-la parece mesmo ser invencível. São anos e anos de esforço, sacrifício, mas sobretudo, de vivência de legado que se quer deixar no Brasil e, quem sabe, no mundo.

Fico extremamente feliz por uma organização como a Globo fomentar isso e colocar luz ao que não é sombra. Ao final dessa semana, o próprio canal da GloboNews deve exibir um programa especial sobre o que foi o festival. Caso você não tenha participado, sugiro se organizar para assistir: quanto mais inspiração as pessoas se permitirem sentir, mais pessoas vão acreditar que a mudança que querem ver começa mesmo na transformação de si.


*http://www.inovacaotecnologica.com.br/noticias/noticia.php?artigo=fungo-supera-engenheiros-projeto-redes&id=010180100209#.WayEXciGPIU 




terça-feira, 29 de agosto de 2017

O mito de que atrair e selecionar resolve

"O esquecimento sistemático do antigo é um e o único meio de forçar o novo." Peter Drucker

A gente sabe que está essa falação sobre propósito, sobre os jovens se motivarem por fatores extrínsecos diferentes dos habituais ofertados pelas políticas de RH, principalmente das grandes organizações.

A gente sabe que boa parte da responsabilidade de atrair, selecionar e reter os tais talentos recai sobre o RH.

E a gente sabe que, por mais que se fale muito também sobre o papel da liderança em deixar de mandar e passar a inspirar, desenvolvendo as pessoas, ainda não aprendemos a trabalhar com os rebeldes: nem líderes, nem RHs - e estou sendo literal mesmo: segundo o dicionário, rebelde é "o que ou quem não se submete, não acata ordem ou disciplina; insubordinado".

Não é uma apologia ao anarquismo, mas uma tentativa de compreensão, provocativa, sobre o que de fato queremos - pessoas e organizações - seja no papel de líder ou de RH.

Tenho, felizmente, conhecido profissionais genuinamente interessados em transformar positivamente a forma como conduzem uma experiência voltada a resultados de negócios, que pragmaticamente colocam o "humano no centro de tudo" e propõem soluções integradas à aliviar as suas dores, não sendo superficiais em apenas promover pontuais prazeres.

Nestas minhas trocas e experiências, percebo empresas de verdade, porque são feitas de pessoas de verdade, no exercício do desapego e do interesse em construírem um legado e uma entrega coerentes com a promessa que fizeram ao longo do encantamento da atração e da seleção.

Histórica e culturalmente, o RH tende a valorizar o "politicamente correto", mas as pessoas hoje que incomodam nas organizações - e não limito este papel apenas aos jovens - são as que provavelmente farão a diferença - e aquelas que não encontrarem espaço, apoio e condição real de quebrar o status quo, serão aquelas que não se sentindo adequadas sairão para montar as empresas que estão mudando o mundo e que poderão, inclusive, quebrar ou incomodar ainda mais as organizações que conseguiram tê-las, mas não aproveitá-las.

Por outro lado, mesmo que se tenha um RH não tão apegado à zona de conforto do não risco, ele pouco conseguirá influenciar se a liderança apenas reclamar do rebelde e não se dispuser a lidar com ele, mesmo que tenha razão sobre os defeitos dessa insubordinação.

A questão, ao meu ver, é que ter cada vez mais consciência de que uma escolha que traga mais prosperidade a longo prazo, mesmo que menos prazer a curto prazo e que exija dos influenciadores da organização que também quebrem o próprio status quo e se assumam inábeis para lidar com muitos dos desafios atuais, a começar por desenvolver os rebeldes, é uma das mais importantes escolhas, fazendo-se entender de que a fuga da dor de hoje é evitar a conquista do prazer e da satisfação da perpetuidade dos negócios ao longo do tempo.

E é por isso que escolher é libertador: mais do que decidir é bancar a decisão de ter que arduamente desenvolver essas pessoas, porque a meta de atrair e selecionar não é sustentável para ninguém: nem líderes, nem RHs - e não há outra forma de fazer, senão reaprender e se permitir para algo novo: bem novo!

terça-feira, 22 de agosto de 2017

O vazio preenchido do deserto - o último

Não vês que somos viajantes?
E tu me perguntas:
Que é viajar?
Eu respondo com uma palavra: é avançar!
Experimentais isto em ti
Que nunca te satisfaças com aquilo que és
Para que sejas um dia aquilo que ainda não és.
Avança sempre! Não fiques parado no caminho.
Santo Agostinho.

Depois do banho, voltamos à rua Caracoles no início da noite para tentarmos agendar os passeios que nossos colegas haviam sugerido - Flamingos! - e foi uma correria só, porque também gostaríamos de fazer as Termas Puritama, um oásis de cachoeiras (quedas d'água, na verdade) e oito piscinas que têm a temperatura da água entre 28oC e 35oC; e as agências estavam fechando: nossa dúvida era se fazíamos os Flamingos de manhã e as Termas à tarde, o que não era recomendado, porque apesar da água ser quente, o sol só bate de manhã; ou seja, sair das piscinas seria no mínimo corajoso.

Como não queríamos abrir mão dos Flamingos, decidimos que não havia muito o que pensar e logo fechamos os tours, jantamos por ali num lugar delicioso, que ficaria por horas, mas o transfer nos buscaria entre 6:30 - 6:45 e acordar naquele frio matinal seria um suplício: ou seja, nada de segunda garrafa de vinho, muito menos ouvir a segunda banda. 

A chegada até o Parque Nacional dos Flamingos foi tranquila, demorou uma horinha, se não me engano, mas descer da van foi difícil: fazia grau negativo e ventava, ventava, ventava. O guia preparou café da manhã para o nosso grupo, com um pão delicioso, mas mal conseguia ficar do lado de fora: em poucos minutos voltei para a van e desejei um cobertor, quando olhei pela janela e vi a Amanda lá longe, tirando fotos da Lagoa de Chaxa.

Confesso que demorei um tempo até criar coragem para sair e encarar o frio para desfrutar de todo aquele oásis inacreditável, ainda sem flamingos, que são as lagoas  no meio do deserto de sal. Andamos por horas pelo parque e nos surpreendíamos a cada parada que explicava a formação daquelas lagoas: toda a água é proveniente do degelo das Cordilheira dos Andes e como ela escoa por vias subterrâneas, carrega muitos minerais, que deixam o deserto mais acinzentado do que branco. Isto, no contexto de um céu azul celeste, com o rosa dos flamingos e o branco de outros pássaros, nos fez n'algum momento sentar e contemplar, por muito tempo.

O frio já não incomodava mais e também já era hora de partir: seguimos com o grupo para a comunidade de Toconao, que embora já havíamos ido, o guia nos dissera que faria outros pontos de parada. Já na pracinha do povoado, entramos numa igrejinha linda, acolhedora, que ainda guarda ruínas da construção original, de 1744. 

Dali, demos uma volta para conhecermos os trabalhos das artesãs locais e, aos poucos, começarmos o rito de despedida daquela viagem incrível, com muita conexão com a natureza e o espírito do tempo, de tantas épocas distintas.

Quando voltamos à São Pedro o relógio já passara das 13h e Amanda e eu nem pestanejamos outra solução para o almoço, que não as maravilhosas empanadas do Café Esquina, já que o transfer para as Termas sairia as 14 horas - para nossa surpresa o passeio só tinha nós duas e, segundo o motorista, "não é comum ir às Termas à tarde. Lá faz muito frio, quando sai da água. Melhor ir de manhã".

Amanda e eu já estávamos de biquíni e achei, ingenuamente, que, chegando, só me bastaria tirar os casacos, térmica, cachecol, gorro, luva para "tomar um sol": fria ilusão - a coisa é tão séria de "não ir à tarde", que o ingresso às termas é o dobro do valor, se você vai de manhã; ou seja, passar frio é uma espécia de promoção (risos).

Mais uma vez, não tínhamos o que fazer, senão ir: e que ida! Que lugar maravilhoso! 

A estrada em si vale a pena pela paisagem e pelo frescor do vento e do cheiro tão diferente de qualquer outro clima ou ambiente natural.

Meu coração já palpitava, sentindo que estava acabando.

Os 800 metros de trilha até chegar às piscinas são de um verde com bege harmônicos e, lá debaixo, ao olhar para cima, me dei conta, de novo: "Estou num oásis no meio do deserto!".

Depois de lermos várias informações distintas sobre as piscinas, Amanda e eu optamos por entrar na mais quente e ficar nela, sem trocarmos uma e outra, para não corrermos o risco de desistir na primeira rajada de vento - e entrar não foi difícil: em segundos tirei os quilos de roupa roupa e pulei - relaxante e mágica a experiência.

Talvez duas horas tenham se passado, quando decidimos sair. Eu fui primeiro, a toalha já estava bem rente à borda das pedras que nos servem de escada: inacreditável e indescritível o frio! Nada comparado ao tour astronômico, ou à espera do amanhecer dos Flamingos. Eu não sentia nada, apenas meus ossos se contorcerem. A dor do gelo do frio era tamanha, que quando a Amanda saiu, mal podia mexer os braços para pegar a mochila e o tênis dela. E ainda tínhamos a máquina. E a minha mochila. 

Trêmula, com meus lábios roxos e, parada, sem conseguir me mover, só consegui dizer: "corre, vai para o banheiro!". Mas a Amanda só ria, de dor e nervoso. A gente não conseguia se mexer. Ficamos, as duas, curvas, quase em posição fetal, tremendo, querendo rir e chorar. 

Não sei como, muito menos da onde, me veio uma força, transformei a energia em calor, dei um passo para frente, e outro. Peguei a minha mochila. A dela. A máquina. Meu tênis. Faltava o dela. E eu só consegui dizer, tremendo, "vem, vamos".

Dali para frente deu branco.

Só me lembro de, já no vestiário, eu pular e gritar "puta-que-pariu-que-frio-da-porra-vou-morrer-relaxa-o-caral**".

Pânico. De-ses-pe-ra-do-ra a sensação. Quando enfim me vesti e me sentei para calçar o tênis, eu só conseguia pensar: "meia, eu te amo! Você é a melhor invenção de todos os tempos!". Por uns cinco minutos, sentada, em silêncio, mesmo com o cabelo molhado, eu finalmente pude sentir o impacto das águas termais no meu corpo e relaxar, com os pés, o corpo e o coração quentes.

Ao sairmos e, enquanto subíamos a trilha de volta, eu só conseguia agradecer ao universo por ter construído aquilo tudo e por nos meus extremos me lembrar dos meus limites e, sobretudo, da coragem em superá-los: toda dor vale a pena!

De volta a rua Caracoles, no fim do dia, admiramos mais um por do sol. Brindamos com um clássico Carmenere e voltamos à pousada para esperar a van que nos levaria de volta à Calama.

Apesar da estrada me parecer conhecida, era eu quem precisava me reconhecer depois de tantas novas experiências e novas descobertas sobre mim mesma e minha relação com este mundo, vasto mundo.




*Não adesão à nova regra gramatical.